Domingo In Albis.
Em nome do Pai e do Filho e do Espirito santo.
Meus Caros Irmãos,
O evangelho de hoje se termina assim ” Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.” (Jn 2030-31). Sāo Joāo nos dá aqui o propósito de seu evangelho : para que nós tenhamos a fé, para que nós creiamos que Jesus é o filho de Deus e que dessa maneira tenhamos a vida eterna. Os evangelhos foram escritos com um propósito apologético, isso nāo quer dizer que eles sāo legendários, bem ao contrário, eles sāo a base de nossa fé, de nossa fé salvadora que repousa sobre a verdade, de nossa fé que venceu o mundo. É entāo primordial ter uma fé verdadeira, uma fé viva.
“Aquele que conhece na verdade, esse aí ama no fogo.” Por essas palavras, Santa Angela de Foligno traduz uma lei, à saber que o amor procede do conhecimento, o desenvolvimento de nossa caridade está ligado àquela de nossa fé que lhe fornece a luz, é a fé, ela mesma tem necessidade da verdade dogmática para se expandir. Nāo saberíamos separar a virtude teologal de fé, a adesāo de nossa inteligência à verdade revelada, virtude sobrenatural, da inteligência à qual ela está enxertada. Nāo podemos crer a um Deus vago, desconhecido. Tente rezar à um Deus desconhecido (nāo muito) ou de meditar um mistério cujo enunciado vós nāo compreendeis, por exemplo o mistério da Incarnaçāo sem conhecer nem o Verbo, nem Maria ? Lembrai-vos o aviso de Sāo Paulo “Como crerão naquele de quem não ouviram falar ?” (Rom 1014). Como poderíamos nós, na nossa prece com Deus, nossos colóquios íntimos ; ficar na companhia de um desconhecido ? Como agradecer à Deus de suas graças se nós nāo o conhecemos ? Como louvar pelo seu Filho se ele resta ignorado ? Santa Teresa do Menino Jesus em suas orações, procurava pelos textos e cenas do Evangelho “Conhecer o caráter do Bom Deus”. O conhecimento é o principio do amor ; o amor por sua vez se torna o estimulante do conhecimento. Entāo, dentre os grandes meios de nossa santificaçāo é preciso contar a leitura espiritual. Santo Ambrósio declara : “A leitura das Sagradas Escrituras é a vida da alma. O Senhor o declara ele mesmo quando ele diz : “As palavras que eu vos disse sāo espirito e vida (Jn 663).“
É a leitura que preparou Santo Agostinho a voltar à Deus assim que ele escutou essas palavras “Tolle et lege” : pegue e leia, uma passagem das epístolas de Sāo Paulo lhe dará a luz decisiva que o arrancará ao pecado e o portará a se converter. Sāo Jerônimo conta como ele foi conduzido por uma grande graça à leitura assídua da escritura. Era a época onde ele começava a levar a vida monástica à Antioquia ; a elegância dos autores profanos ainda muito o prazeirava, ele lia de preferência as obras de Cícero, Virgílio e Plauto. Ele recebeu entāo essa graça, durante seu sono, ele se viu como que transportado diante o tribunal de Deus, que lhe perguntou muito severamente quem ele era : “Eu sou cristāo” respondeu ele. “Tu mentes disse o juiz soberano. Tu es ciceriano porque lá onde está o teu tesouro, lá está o teu coraçāo”. E a ordem foi de o flagelar. “Eu senti bem a meu despertar, conta Sāo Jerônimo, que aquilo era bem mais que um sonho, era uma realidade, porque eu portava sobre as costas as marcas de chicote que eu tinha recebido. Depois esse tempo lá eu li as santas escrituras com mais ardor que eu nāo lia antes os livros profanos”.
Em qual livro podemos melhor encontrar a vida da alma que na escritura cujo Deus é o autor, nos livros escritos para que o creiamos ? Sobretudo no evangelho, as palavras do Salvador, os feitos de sua vida escondida, de sua vida apostólica, de sua vida dolorosa devem ser o ensinamento vivo ao qual é preciso sempre voltar.
Alguns dirāo talvez : eu me contento do terço, a Santa Virgem saberá bem me guardar. Vos quereis meditar os mistérios do rosário em vos dispensando de saber qual realidade eles exprimem ? Jesus sabe render as coisas mais altas, as mais divinas, accessíveis a todos, pela simplicidade com a qual ele fala. Considerem a riqueza de seu ensinamento em parábolas, como ele nos fala das realidades celestes por comparações tiradas da vida cotidiana. Releia seu sermāo sobre a montanha, o sublime discurso após a Ceia racontado por Sāo Joāo.
Se nós os lemos com as disposições requeridas, com humildade, fé e amor, com uma verdadeira vontade de conhecer o caráter do Bom Deus, essas palavras divinas contém uma graça especial que nos leva cada dia mais e mais à imitaçāo das virtudes do Salvador. Nós teremos à boca as palavras de Deus para repelir os ataques do demônio, para consolar os aflitos, para transmitir Jesus Cristo ele mesmo à nosso próximo. Nāo abandonem o Evangelho aos protestantes, ele foi dado à Igreja e nós somos os filhos da Igreja. Quem dentre nós já leu os Evangelhos ? Eu as vezes visitei famílias católicas que nāo tinham mesmo o novo testamento. Que vergonha, que infelicidade. Eles estavam dispostos a para escutar as novidades do rádio mais os seus corações estavam surdos à Boa Nova, por nada no mundo, eles perderiam o novo episódio da novela favorita mas jamais eles seriam interessados à vida do Redentor. E portanto sob a casca da letra dos evangelhos, tem o pensamento vivo de Deus que nossa meditaçāo nos fará experimentar e penetrar.
Após o evangelho, nada mais profícuo que o primeiro comentário que foi escrito sob a inspiraçāo divina : os Atos dos apóstolos e as epístolas. Esses sāo os ensinamentos do Salvador vividos por seus primeiros discípulos, encarregados de nos formar, ensinamentos explicados e adaptados às necessidades dos fiéis.
É, nos Atos, a vida heróica da Igreja nascente, sua difusāo ao meio das maiores dificuldades. Alguns se deleitam da leitura da vida dos santos mas esquecem de ler a vida dos primeiros santos escrita pelo Espirito Santo. Nāo é por nada que a Igreja nos faz ler a cada missa passagens da escritura santa. É para uma melhor recepçāo de Jesus-hostia. Se o culto católico tem por fim primeiro a louvaçāo divina, ele visa também a preparar os cristāos a louvarem dignamente Deus, a o receber no comunhāo eucarística no espirito de fé e de amor.
É por essas razões que a Igreja encoraja a leitura da escritura santa concedendo uma indulgência plenária a todos fieis que lêem a santa escritura, em uma versāo aprovada pela autoridade competente, com a veneraçāo devida à palavra divina e pela maneira de leitura espiritual, durante ao menos uma meia hora. Corremos às vezes bem longe para ganhar indulgências, portanto basta se voltar em direçāo à sua biblioteca dentro dos melhores casos, ou em direçāo a uma livraria, se, por acaso, vós nāo haveis a Santa Bíblia no vosso lar.
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Padre Roch Perrel
Instituto do Bom Pastor
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